O mundo do trabalho mudou nos últimos anos. Com a oficialização do trabalho intermitente na legislação brasileira, vimos crescer um novo segmento de profissionais: colaboradores que não têm vínculo fixo com horários ou jornadas semanais regulares, sendo convocados conforme a necessidade da empresa. Esse modelo trouxe desafios específicos para a gestão de saúde e segurança do trabalho, especialmente quanto aos riscos psicossociais previstos e mapeados pela NR-1.
O que é o trabalho intermitente?
Legalmente instituído pela Reforma Trabalhista em 2017, o trabalho intermitente permite que uma empresa contrate um trabalhador sem uma rotina fixa, pagando somente pelas horas efetivamente trabalhadas. O contrato formal existe, com carteira assinada, mas a previsibilidade é mínima. As convocações podem ser semanais, mensais, ou mesmo esporádicas, conforme a demanda.
Para o trabalhador, há flexibilidade, mas também incertezas. Para as empresas, uma grande responsabilidade recai, já que precisam garantir direitos, treinamentos, segurança e condições de trabalho adequadas, mesmo com a ausência de vínculo diário. É neste contexto que os riscos psicossociais ganham destaque, e nós, como Pesquisa NR1, temos observado impactos significativos.
Por que os riscos psicossociais são tão mais evidentes neste modelo?
No trabalho tradicional, a rotina, os grupos estáveis e o sentimento de pertencimento ajudam a dar suporte emocional ao trabalhador. No trabalho intermitente, esses elementos muitas vezes desaparecem. Listamos abaixo alguns dos fatores-chave:
- Incerteza sobre a renda: Com variações frequentes nos chamados, o trabalhador pode passar semanas sem ser convocado, sentindo-se inseguro financeiramente.
- Falta de integração: Participação limitada nas equipes, o que dificulta construir relações de confiança entre colegas e líderes.
- Dificuldade de acesso a treinamentos: Muitas vezes, a comunicação sobre saúde e segurança é feita apenas nos encontros presenciais e breves, prejudicando a fixação de orientações e processos preventivos.
- Pouca previsibilidade: O trabalhador não sabe se e quando será chamado novamente, vivendo em estado de alerta contínuo.
- Sentimento de invisibilidade: A ausência prolongada no ambiente de trabalho pode gerar sensação de não pertencimento, contribuindo para o isolamento.
Falta de rotina e incertezas elevam o risco psicossocial no trabalho intermitente.
Esses fatores são continuamente relatados em diagnósticos que realizamos no Pesquisa NR1, em diferentes segmentos e regiões do Brasil.
Mapeamento dos riscos psicossociais segundo a NR-1
Segundo a atualização da NR-1, todas as empresas precisam mapear e registrar os riscos ocupacionais, incluindo os psicossociais, como parte do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). O desafio é como mensurar e tratar esses riscos em regimes com vínculos tão flexíveis.
O levantamento dos fatores psicossociais – como estresse, pressão por resultados, assédio ou más condições de relacionamento – exige metodologias adaptadas ao contexto do trabalho intermitente. Muitas vezes, a distância do trabalhador dificulta a aplicação de pesquisas e a criação de canais de escuta eficientes. Por isso, ferramentas digitais e plataformas de consulta, como as soluções que desenvolvemos no Pesquisa NR1, tornam-se aliadas importantes para esse diagnóstico transparente e visual.

Como adaptar o mapeamento para a realidade intermitente?
Na prática, algumas medidas têm se mostrado eficazes para ampliar a efetividade do mapeamento dos riscos psicossociais neste modelo. Destacamos algumas:
- Uso de pesquisas digitais rápidas, acessíveis via celular, para captar a percepção do trabalhador a distância.
- Comunicação ativa e clara sobre canais de denúncia e apoio no ambiente virtual.
- Revisão periódica dos achados do mapeamento, mesmo com times flutuantes.
- Incluindo trabalhadores intermitentes nos ciclos de feedback e em campanhas de saúde mental promovidas pela empresa.
Acima de tudo, é preciso garantir que o trabalhador tenha voz e seja ouvido, mesmo que sua presença no ambiente seja mais esporádica.
Principais riscos psicossociais no trabalho intermitente
No blog do Pesquisa NR1, nós abordamos os principais riscos psicossociais, que incluem:
- Estresse crônico devido à instabilidade e às incertezas.
- Assédio moral, especialmente pela sensação contínua de substituição ou descartabilidade.
- Sobrecarga episódica, quando o trabalhador é chamado em períodos de alta demanda e precisa produzir intensamente por curtos períodos.
- Violência organizacional, oriunda da falta de integração e controle social grupal.
- Baixa autoestima, alimentada pelo sentimento de invisibilidade e baixa valorização.
Esses riscos podem afetar tanto a saúde mental quanto a saúde física do trabalhador. Os sintomas mais comuns vão desde ansiedade e insônia até problemas psicossomáticos como dores persistentes e alterações na pressão arterial.
Conheça mais sobre os riscos psicossociais em nossos conteúdos especializados.Dificuldades das empresas e caminhos possíveis
Mesmo as empresas mais atentas às exigências legais encontram barreiras na hora de implementar ações efetivas para prevenir riscos psicossociais no regime intermitente. Pela nossa experiência, os seguintes pontos são os que mais desafiam gestores e times de Saúde e Segurança do Trabalho:
- Identificação e cadastro: Saber quem são, onde estão, e quando trabalharam os intermitentes é fundamental para incluí-los em todos os processos do PGR.
- Acompanhamento longitudinal: O risco psicossocial não está restrito apenas ao dia do trabalho; muitas vezes, ele se estende pelo período em que o trabalhador não é chamado.
- Promoção de saúde mental: Oferecer programas de apoio psicológico, mesmo a distância, pode ser uma estratégia para atenuar quadros de ansiedade e isolamento.
Um caminho possível é estruturar rotinas de escuta ativa, programas de acolhimento e parcerias com plataformas que já atuam na mensuração digital desses riscos, como já realizamos no Pesquisa NR1.

Mitos comuns sobre riscos psicossociais no trabalho intermitente
Ao longo dos projetos do Pesquisa NR1, notamos muitos equívocos acerca do tratamento dessas questões em trabalhadores intermitentes. Alguns mitos impactam negativamente as ações preventivas:
- “Como o trabalhador não está sempre presente, não precisa das mesmas ações que os fixos.” – Todos os trabalhadores devem estar contemplados no PGR, independente da frequência de atuação.
- “Riscos psicossociais são subjetivos e não podem ser medidos.” – Existem metodologias validadas que quantificam e tornam visíveis esses riscos, como mostramos em nossos dashboards.
- “O próprio trabalhador escolheu essa modalidade, então assume os riscos.” – A legislação é clara: cabe à empresa garantir um ambiente psicologicamente saudável a todos, sem distinção de vínculo.
Não há risco invisível para quem faz o diagnóstico certo.
Aliás, com o advento do eSocial e da auditoria digital, a ausência de dados pode significar problemas graves para a empresa.
Como transformar o diagnóstico em ação contínua?
Não basta identificar e mensurar riscos psicossociais. É preciso agir. Em nossos projetos com clientes de variados portes, notamos três pontos que fazem diferença na transformação:
- Treinamento regular de líderes para identificar sinais de alerta em colaboradores intermitentes.
- Compartilhamento de resultados das pesquisas, mostrando que os relatos são considerandos na gestão.
- Monitoramento constante à distância por ferramentas visuais e pesquisas rápidas, garantindo atualização contínua do PGR.
Empresas que seguem essas rotinas e investem em soluções digitais para riscos psicossociais conseguem criar um ambiente de confiança e pertencimento, reduzindo afastamentos e melhorando indicadores de SST.
No Pesquisa NR1, nós traduzimos dados complexos em inteligência de gestão, facilitando o envio de indicadores rastreáveis para órgãos reguladores. Se quiser saber mais sobre como fazemos o gerenciamento de riscos psicossociais conforme a NR-1, temos um material completo em nosso blog.
Para onde caminham as melhores práticas?
A tendência é que o trabalho intermitente siga em crescimento, especialmente em setores como comércio, eventos e logística. Nesse novo panorama, a prevenção dos riscos psicossociais passa por alguns pilares essenciais:
- Adoção de plataformas digitais para captação e análise de dados de todos os vínculos laborais, como as que implementamos no Pesquisa NR1.
- Inclusão da pauta saúde mental no DNA da gestão, indo além das obrigações legais.
- Criatividade ao estruturar canais de escuta e feedback também para quem está longe do escritório.
Há outras reflexões importantes sobre isso no artigo sobre sinais de que a empresa ignora os riscos psicossociais.
Transformar dados em ação é o próximo passo para ambientes de trabalho psicologicamente saudáveis.
Conclusão: agir é tão importante quanto diagnosticar
No Pesquisa NR1, acreditamos que o diagnóstico correto dos riscos psicossociais no trabalho intermitente é apenas o início da jornada. Utilizar dados para promover mudanças reais no ambiente de trabalho é o caminho para criar relações de confiança e evitar problemas legais, como exige a NR-1. Para equipes híbridas ou que atuam remotamente boa parte do tempo, temos um conteúdo dedicado sobre mapeamento de riscos psicossociais em equipes híbridas.
Se a sua empresa conta com colaboradores intermitentes, autônomos ou sob modelos flexíveis, convidamos você a conhecer nossos serviços e descobrir como transformar exigências legais em resultados concretos. Fale conosco e veja como diagnosticar é importante, mas agir é fundamental para garantir um ambiente de trabalho psicologicamente seguro.
