Quando pensamos em riscos psicossociais e saúde mental no ambiente de trabalho, normalmente nos lembramos de rotinas exaustivas, pressão por resultados ou conflitos interpessoais. No entanto, com base na nossa experiência na Pesquisa NR1, afirmamos que há um elemento invisível, mas determinante: a cultura organizacional.
A construção diária de práticas, valores, estilos de liderança e comunicação influencia diretamente no bem-estar das equipes. E muitas vezes, sem um olhar atento, acabamos normalizando comportamentos e ambientes que, na verdade, ampliam os riscos psicossociais.
O que é cultura organizacional e por que ela importa?
Cultura organizacional vai muito além de quadros na parede ou frases motivacionais. Trata-se do conjunto real de crenças, hábitos e rituais que guiam como pessoas interagem e resolvem seus desafios no dia a dia.
No contexto das exigências do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais da NR-1, a cultura pode ser aliada ou um obstáculo silencioso. Quando a cultura favorece abertura, acolhimento e respeito, os riscos psicossociais são minimizados. Quando privilegia competitividade tóxica, silêncio diante de abusos e autoritarismo, o perigo cresce.
Principais fatores culturais que aumentam os riscos psicossociais
Em nossas pesquisas e diagnósticos, identificamos padrões recorrentes em empresas de diferentes portes e setores. Alguns desses fatores têm impacto imediato e outros vão minando o ambiente de forma gradual. A seguir, destacamos os mais relevantes:
1. Estruturas rígidas e pouca autonomia
Em ambientes excessivamente hierarquizados, os colaboradores vivem sob controle constante. Ordens partem do topo e pouca autonomia é concedida para decisões simples, o que gera:
- Baixa sensação de pertencimento;
- Medo de errar e ser penalizado;
- Desvalorização de iniciativa ou criatividade;
- Ambientes inibidores do diálogo aberto.
O resultado é um clima de insegurança e ansiedade.
2. Comunicação ineficaz e falta de transparência
Quando a comunicação não é clara, aumenta a chance de interpretações erradas, boatos e sentimentos de insegurança. Dificuldade em dar e receber feedbacks, reuniões excludentes e ausência de canais formais de escuta são sinais de alerta.
3. Normalização do estresse e pressão abusiva
Em ambientes onde "trabalhar sob pressão" é esperado, a sobrecarga deixa de ser exceção e passa a ser rotina. Trabalhar até tarde, sacrificar finais de semana ou lidar com metas inatingíveis vira sinônimo de "vestir a camisa".
O excesso de pressão, quando normalizado, torna invisíveis os pedidos de ajuda.
Esse cenário propicia o desenvolvimento de ansiedade, síndromes de burnout, absenteísmo e aumento do turnover.
4. Falta de reconhecimento e valorização
Quando colaboradores sentem que seus esforços não são reconhecidos, perdem o engajamento e, em muitos casos, o sentido do próprio trabalho.
- Metas batidas são vistas como obrigação;
- Feedbacks positivos são raros;
- Promoções e crescimento ficam restritos a poucos grupos;
- Sensação de injustiça e tratamento desigual se instala.
O ambiente deixa de ser saudável quando o reconhecimento se torna exceção, não regra.
5. Estímulo à competitividade individualista
Competição pode ser positiva, mas, sem limites claros, transforma colegas em rivais. Culturas que promovem o "cada um por si" incentivam comportamentos como sabotagem, isolamento e resistência ao trabalho em equipe. Isso intensifica os riscos psicossociais ligados a conflito, assédio e insegurança.
6. Dificuldade em lidar com diversidade e inclusão
Falta de políticas transparentes de diversidade e inclusão contribui para discriminação, microagressões e barreiras ao reconhecimento de diferentes perfis. Ambientes que ignoram essas questões tornam-se hostis para grupos minoritários, ampliando exponencialmente os riscos psicossociais.

Como identificar riscos psicossociais ligados à cultura?
Perceber esses fatores dentro das organizações não é tarefa simples. Muitas vezes, gestores e equipes de Segurança e Saúde do Trabalho (SST) normalizam padrões sem perceber o impacto ao longo do tempo. Em nossos projetos e consultorias na Pesquisa NR1, adotamos métodos de escuta ativa, pesquisa de percepção e análise de dados para tornar o subjetivo em concreto.
- Medição de clima organizacional;
- Pesquisas confidenciais de percepção sobre fatores de risco;
- Análise de indicadores de absenteísmo, reclamações e rotatividade;
- Observação de padrões recorrentes em reuniões e interações cotidianas.
O mapeamento dos riscos psicossociais precisa ser sistemático e traduzido em dados, pois somente assim é possível desenvolver ações práticas.
Ferramentas e metodologias de apoio
Aproveitamos recursos como dashboards visuais de resultados, reconhecendo que a visualização facilita a identificação das áreas mais críticas. Dessa forma, ajudamos gestores a tratar as causas, não apenas os sintomas. Quem quiser aprofundar sobre metodologias pode consultar a nossa categoria de riscos psicossociais em nosso blog.
Quais são as consequências de ignorar a cultura na gestão de riscos?
Ignorar o papel da cultura organizacional no surgimento de riscos psicossociais traz sérios problemas:
- Desmotivação e queda do desempenho coletivo;
- Aumento dos afastamentos por questões de saúde mental;
- Maior exposição a processos trabalhistas relativos a assédio e abusos;
- Dificuldade em reter talentos;
- Imagem institucional abalada perante colaboradores e sociedade.
Observamos também que empresas que não alinham a gestão de riscos com a cultura tendem a falhar na implementação do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), gerando dificuldades em auditorias e no envio de informações para o eSocial e demais órgãos.
A cultura define se um risco será rapidamente eliminado ou perpetuado.
Práticas recomendadas para transformar a cultura
Nossa experiência no Pesquisa NR1 mostra que a mudança de cultura exige consistência e paciência. Algumas práticas indicadas são:

- Formação de líderes para comunicação transparente e empática;
- Criação de canais formais e anônimos de denúncia e escuta ativa;
- Reforço das políticas de reconhecimento, além do alcance das metas;
- Estímulo ao trabalho coletivo, premiando resultados em equipe;
- Fiscalização permanente de práticas discriminatórias e construção de políticas de inclusão;
- Revisão periódica dos valores da empresa à luz dos resultados das pesquisas de clima e riscos.
Outras recomendações práticas podem ser conferidas na nossa seção de gestão de riscos.
Monitoramento contínuo e ação estratégica
Segundo a NR-1, é obrigatória a adoção de processos de monitoramento dos riscos psicossociais e atualização das estratégias de mitigação. Por este motivo, reafirmamos que não se trata de ações pontuais, mas de um ciclo contínuo de diagnóstico, intervenção e avaliação de resultados.
Na Pesquisa NR1, defendemos o uso de dashboards e relatórios que transformam dados em inteligência de gestão, aproximando legalidade e saúde mental. Quem quiser identificar se a própria empresa está ignorando algum destes fatores, recomendamos a leitura do artigo com 7 sinais de que a empresa ignora os riscos psicossociais.
Por fim, reforçamos que cuidar da cultura organizacional é proteger não apenas o negócio, mas principalmente as pessoas.
Cultura organizacional é, acima de tudo, uma prática viva e diária.
Se você deseja avaliar como a cultura da sua empresa pode estar aumentando riscos psicossociais e implementar um diagnóstico estratégico, conheça melhor nossas soluções no Pesquisa NR1. Buscamos transformar dados em ações e fortalecer ambientes verdadeiramente seguros e saudáveis para todos.
Para aprofundar ainda mais sobre temas de comportamento, riscos e intervenções, confira nossa categoria psicossocial no blog Pesquisa NR1.
